Questão central: "quando foi que a polícia deixou de estar integrada à comunidade?"
Um capitão explica as razões do fenômeno. Primeira razão: a polícia foi fundada para defender o patrimônio estatal. Como sua prioridade não era o cidadão, embora fosse amável com ele, nunca conquistou sua simpatia. Segunda razão: quando, em virtude do avanço tecnológico, o automóvel se tornou a principal forma de locomoção da polícia, ela deixou de conviver com a comunidade, que fazia as suas coisas a pé.
Parece piada, mas não é.
Afinal de contas, antes disso, a polícia era como o leiteiro. Passava de porta em porta, dizia "bom dia" para as donas de casa e os vendedores nas ruas. Ela não extorquia, não espancava. Apenas protegia o cidadão honesto e bem de vida dos loucos que andam por aí.
Ela encarnava a felicidade pública, lograda nos negócios, estendida naturalmente à população. Por isso, é claro, cada homem via, na ronda de seu bairro, a imagem de seu mundo, onde era fácil garantir a própria sobrevivência e ninguém tinha que conter ou eliminar os que ameaçavam esse feliz propósito.
Por exemplo, quando um quitandeiro oferecia ao policial um lugar à sua mesa, isso nada tinha a ver com uma esperança de beneficiar seus negócios, protegê-lo de assaltantes e até, quem sabe, cobrar seus clientes insolventes. Não. As forças da lei e da ordem simplesmente faziam parte da calma e acolhedora atmosfera familiar. O policial amavelmente convidado a entrar era o bibelô do Estado, acomodado sem solavancos ao seio da família brasileira.
Quando ele, antes de lavar as mãos, tirava respeitosamente seu quepe e o deitava na poltrona da sala de estar ao lado do oratório e do cacetete, ouvia-se a prece da familia em agradecimento à mesa farta. E nesta ocasião, todos os dias, confirmava-se mais uma vez a solidez da celula mater da sociedade brasileira, hoje, por algum motivo, pervertida...
Ah, como eram bons aqueles tempos...