Olha, não vou votar na Dilma nesse primeiro turno. Não tenho nenhuma simpatia pelo PT atual. Apesar disso, não dá pra concordar com esse vídeo aí. Nem de longe...
***
Tinha um contexto que justificava os assaltos dos guerrilheiros. O dinheiro provavelmente bancou a sobrevivência muitas pessoas que viveram na clandestinidade. E essas pessoas lutaram, em nome de todos, contra condições insustentáveis que todos viviam. Assumiram os riscos e as coisas sujas que se faz para combater a opressão.
As pessoas que têm que ganhar a vida sem muitas vantagens, brigam, se digladiam, roubam oportunidades, promovem-se de maneiras as mais diversas (nem sempre muito elegantes), conservam o interesse sempre atrás da testa, tornam-se oportunistas, instrumentalizam relações, tornam-se hipócritas, acomodam-se ou criam situações conforme a necessidade. Depois usufruem de serviços que devem ser de todos. E usam o favoritismo conseguido por canalhices como sinal de distinção com relação aos que puderam menos. E tudo isso, sob a noção de "lutar para viver" e protegido por uma crença pessoal de dignidade (verdadeiramente religiosa!), é aceitável. Agora, numa situação que era muito mais violenta, por que as pessoas não deveriam assumir as coisas difíceis implicadas em qualquer tipo de luta pela liberdade?
Por que deveriam ser condenadas por isso? Só porque outras não assumiram (escolheram essas canalhices silenciosas que conhecemos) e assim estabeleceram o padrão de moralidade aceitável em condições extremas? O sequestrador, ladrão ou assassino de esquerda não é herói. Mas quem só sujou as mãos de longe merece ser alçado à posição de modelo moral da época? Não são pessoas parecidas demais com as que condenamos em segredo e de cuja "essência" nos separamos imaginariamente, só para provar que, apesar de tudo, ainda continuamos humanos?
Não continuamos. Somos menos humanos. E quem comprava televisão, assistia aos festivais com o salário de funcionário mas recuava de lutar está nesse mesmo patamar. E quem não se resignou a tão inglória compensação de maneira alguma é inferior!
Talvez até sejam superiores (não tenho gosto em heroicizar quem fez o que tinha que ser feito. Mas o que é certo é certo. E aquilo era!). Afinal, nunca é demais lembrar que o silêncio, apesar de ter um preço muito alto, vinha com a possibilidade de ser cidadão, ter um emprego e poder ter uma vida.
Não era assim que a canção dizia? "É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar/ Que um rosto sombrio está cheio de dor"?. Por que Gilberto Gil dizia que quem era "forte" o suficiente pra aguentar essa dor, que abrangia todos os quadrantes da vida de cada pessoa (em alguns casos, menos a conta bancária), deveria lembrar-se de que um rosto vazio era feito de dor? Porque a violência do Estado e a recompensa da vida conservada fazia com que as pessoas se esquecessem em quê sua sobrevivência estava baseada. E estava baseada em duas violências diametralmente oposta: a das acomodações dos que não foram para a luta política e a das agruras que aqueles sofriam.
A história muda sozinha, sem a ação das pessoas? Será que ela muda?
Está certo, era possível para o Estado voltar a ser democrático novamente. Era até necessário e intimamente relacionado às próprias razões do golpe, que o país abrisse o mercado interno para o mundo que se integrava rapidamente. Mas, mesmo assim, não foi a ação sindical, a formaçãdo PSDB e do PT, as lutas camponesas, as guerrilhas urbanas, a "contra-cultura", as ondas sucessivas de libertação colonial internacional, que foram mantendo a luta política em pé? O país realmente seria forçado no sentido da democracia se não fosse por essas lutas? É improvável. Nossa república nasceu com a espada e poderia muito bem continuar assim. Muitas outras da América Latina continuam assim.
Enfim, pensando direito, será que não projetamos uma acomodação ruim ao nosso tempo como motivo para aceitar a acomodação ruim (mas relativamente compreensível) daquele tempo? De fato nem todos que ficaram quietos eram gente ruim. Os apoiadores o eram, não háum minuto de dúvida quanto a isso. Mas será que a demonização de quem não assinou essa promissória não é o preço que o eleitorado de 2012 faz os revoltosos de 64 pagarem, pela vergonha de quem (mesmo que discordando da situação) não se deu ao trabalho de revoltar-se (e não quis, ou não pôde)?
****
Acontece que, quando as pessoas discutem a desumanidade dos que não toleraram pressão da ordem, raramente se dispõem a pensar sobre o que significava acatar a ordem. Acho que pensar sobre isso pode ser interessante. Pelo menos para não reservar só aos "clandestinos" a pecha de desumanos...
O que quero dizer com isso? Que a acomodação a uma situação de violência, apesar de conservar a pessoa do grosso do tranco exterior, sempre corre o risco de ser feita por meio da interiorização da violência. E é justamente essa violência interiorizada que deixa de aparecer como violência para o sobrevivente. A mesma que, nesse vídeo, é creditada unicamente à chamada "guerrilheira".
Claro que isso não era geral. Muita gente, se nao arriscou cortar laços com a vida civil, tratou de resistir no campo costumes, pelo menos o quanto isso era possível. O pessoal cuca-fresca, por isso mesmo, apesar de estar um pouco no mundo da lua (financiado pela comunidade hippie ou pelo emprego na Shell) resistia à sua maneira à indizível pressão que o medo devia exercer sobre a conduta...
Mas, que fique claro: resistia só até certo ponto. E não devia ser incomum (não deve ter sido, julgando pelos filhos dessa geração, que conhecemos), encontrar os híbridos mais bizarros: mil variantes de defensores da liberdade que, de uma maneira ou de outra, tornavam-se violentos em algum aspecto. Nada disso tira o mérito dessas pessoas. Mas mais importante: nada tira o mérito delas, assim como a violência não tira o das que ousaram coisas tão importantes quanto combater abertamente o regime. Pessoas como a Dilma.
É comum tirar essas pessoas do quadro de uma vida comum. Quem não pagou o preço de aceitar a situação intolerável, sofre por compensação um processo de mitificação. São radicais, gente extremada, violentos, idealistas, loucos, em alguns casos doentes, ou então heróis, gente muito forte, extremamente determinada, santos. Dificíl é vê-las em sua humanidade completa, que é a mais reles, a mais comum. Ver como um ato de resistência nasce do fato de não se tolerar opressões que consideramos comuns, coisa que qualquer adulto deve suportar.
Ora, por isso mesmo, o contrário acontece com as pessoas ditas "normais", a que se atribui a grandeza da pequenês unânime de simplesmente querer viver, custe o que custar. Mas pensando até o fim a pessoa que tomava todas as precauções para não tornar-se um alvo - e por motivos compreensíveis, acomodava-se - o que acontecia com ela? E com os que estavam à sua volta?
Bom, além de terem de ficar quietinhas aproveitando tanto quanto possível do "milagre econômico", era importante confessarem-se cristãs, mesmo que isso não fosse verdade. Muito fervor entretanto não era aconselhável, já que podia levar a suspeitar de que fosse mentira (ou mesmo que o fervor humanista, mesmo que mistico, pendia à esquerda. Convinha portanto um ar de leve observância aos bons costumes, que, na prática, devia ser confirmada por coisas bem mais terríveis, sob a suspeita de ser só aparência.
Por isso mesmo, para todas as necessidades da vida que implicam agir-se sexuada e incisivamente, você encontraria sérios problemas. A competição por emprego entre elas. Mas também a libidinal. Afinal, não só o pai estaria te esperando com um pedaço de pau na mão depois do cinema ao ar livre. Não ligou para a páscoa? Não distribui santinhos no emprego? O que você lê à noite antes de dormir não deve ser a bíblia, então. Ou, no mínimo sua família não presta e você, por mácula de origem, pende para a subversão.
Em pleno desbunde, nenhum parente da família devia apresentar sinais de excessiva propensão libidinal de qualquer natureza. Qualquer desvio à ordem dos costumes, dos gostos e dos afetos poderia ser um risco. Isso abrangia desde o quarto até o guarda-roupa. Trajar roxo e amarelo certamente seria como andar pelado na rua. E se demonstrar resistências pessoais seria um risco, andar com gente inadaptada (e quem não era?) também poderia trazer problemas.
Você não é um idiota. Tem afeto às pessoas. Uma relação tranquila e calorosa com seus modos de serem. Acha um pouco sem sentido os rótulos. Tem amigos, tem experiências afetivas diversas, seus gostos vai se moldando no entrave entre elas e sua vontade. Você passa por tudo isso, e no final?
Se já não rechaçou essa confusão no processo, tem que se acomodar ao que já estava previsto para você no pijaminha azul ou rosa, com tal e outro tipo de corte, que é o mesmo do grupo dos bancários, almoxarifes com que vc convive, etc. Tem que ouvir uma música que não lhe agrada porque as demais foram proibidas ou seriam arriscadas.
Um grande amigo com quem vc batia grandes papos e foi viajar várias vezes andou falando em Cuba e coisas desse tipo - foi visto fumando um baseado, estava na estreia de "Roda Viva". Baubau, vc nunca mais verá essa pessoa. E você terá de confirmar as aparências de não ter sido contaminado, com uma decisão à toda prova de não vê-lo.
Enfim, você tornou-se um idiota. Um idiota dividido, mas ainda assim, um idiota. Toda a pletora de vida que te alimentava foi trocada por um punhado de dinheiro no final do mês e a garantia de não levar choques e pauladas. Você reflete e pensa que fez o certo. Mas, ainda assim, sabe que tornou-se um ser humano mais pobre por causa disso.
Se alguém (posto não fosse mulher) estivesse sem emprego, isso poderia parecer suspeito para a polícia (e os vizinhos) também. Talvez um grupo secreto estivesse sustentando a ovelha negra, pois o pai, lídimo defensor da ordem e do trabalho, é que não estaria. Imaginem a condição de qualquer adolecente? Eles não gostam mais de sonhar do que de prestar-se às ordens dos outros? Iriam direto ou para a comunidade hippie ou para a luta armada, ou para a cadeia. Mesmo no caso de a pessoa ter dinheiro, não precisar trabalhar, e não poder comprovar como o empregava, deveria ser um risco não trabalhar. Muito embora o desemprego fosse providenciado, para os outros, pelos recém-instalados critérios de excelência da sua empresa ou a do vizinho.
Olha só que situação paradoxal! Por ser proprietário e não afirmar-se ostensivamente alinhado com o regime, você se tornou alvo de suspeita de colaboração com comunistas. Melhor ir rapidinho ao delegado, abrir sua cadernetinha bem devagarinho, ponto por ponto.
Mais seguro mesmo é fazer como o Boilisen, e escrever um cheque bem gordo para a Operação Bandeirantes, confirmando que seus interesses não estão divididos entre a vida e as vendas.
Por outro lado, da parte de um trabalhador, qualquer tipo de incômodo com as condições de trabalho também seria um problema. E se isso é evidente no que se refere à repressão aos sindicatos, dá pra imaginar o que isso representava para a relação pessoal do trabalhador com o ambiente de trabalho (que é sempre marcada por discordâncias, quando não por ódio aberto diante da exploração?).
Outra coisa. Qualquer prurido intelectualista deveria ou ser imediatamente desviado para a justificação do
status quo, ou clandestinamente alimentado, ou duramente sufocado (provavelmente por meio de pauladas literais ou simbólicas). Não estou falando de nenhum gênio de humanidades. Digamos que você gosta de carros, quer saber como eles são feitos, se interessa pela mecânica das peças. Você vai estudar engenharia, mas conhece à fundo a física e a matemática. Aprende sobre o papel emancipador que a ciência clássica desempenhou, apaixona-se pelo engenho humano em resolver problemas. Suas convicções políticas e seus gostos serão alterados pela descoberta. Mas não, você deverá se ater a seu medíocre propósito inicial: o de formar-se engenheiro e procurar emprego em uma montadora (o grau de automutilação necessário para parar alguém nesse tipo de busca não deve ser desprezado...).
Mas, não é preciso ir para algo tão específico quanto uma vida intelectual para reforçar a imagem. As próprias conversas comuns do dia a dia deviam ser como pontos marcados (mais do que já são hoje). E haja arte nisso! Afinal, não devia ser muito bom para as aparências manter-se totalmente superficial, sob suspeita de se estar escondendo alguma coisa. Em compensação, também não se podeira falar muito, pois os assuntos, descontrolados, certamente levariam à revelação de desvios de opinião.
Mais uma vez: não estou falando só de gente que precisa discutir as coisas à fundo. Nem da necessidade de se comentar os sucessos públicos do dia.
Digamos que você, um chauvinista típico, queira desafogar a rotina e a tensão conversando no bebedouro da firma com seu colega sobre uma noitada. Menciona uma certa casa de diversão que gosta de frequentar. Pois bem, nesse caso você está em sério risco de ser mandado para o xilindró. Afinal, mesmo que esse amigo seja um assíduo frequentador da Maison Frolé, a condenação por imoralidade pode levar à cadeia e, por isso mesmo, é um meio permanente de eliminação da concorrência. Quantas pessoas não devem ter se aproveitado disso?
***
Quem ler isso, dependendo do ponto de vista, vai pensar: puf... a maioria dessas pressões já atuam sobre todo mundo, mesmo sem ditadura. Verdade. E isso deveria justificar o quê? A acomodação a elas? A proximidade que as pessoas procuram com ter esse modelo safado de gente qualificada quanto ao critério da vez? A sabedoria de tal escolha, diretamente relacionada ao fato de ela ainda proporciar ganhos na vida?
Não duvido que metade da estreiteza que vivemos hoje se deva a essa compreensível covardia dos que não queriam levar chumbo, nem receber a visita da polícia. Afinal, em tais condições, era melhor tornar-se um tirano (consigo e com os outros) no intuito de apresentar-se como um cidadão avesso à subversão. Assim como hoje é melhor deixar com que informações imbecis como a desse vídeo ensinem às pessoas a lição de brutalidade que os pais, brutais e estúpidos como eram, já não podem mais ensinar, simplesmente porque não se renovam tão rápido quanto a Apple.
Enfim, são os filhos e netos dessa acomodação violenta que estão prontinhos para acreditar nesse vídeo. Já estão antes de nascerem. Foi esse "bom-senso" que foi sendo despejado em suas cabeças. E isso em virtude da pura e simples aparência das coisas. A mesma que, quase 30 anos depois, confirmou como necessárias e desejáveis metade dessas absurdas e desumanas medidas de segurança, dispensando já a desculpa de fugir à morte e à tortura.