segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Doc sobre a PM de SP

Questão central: "quando foi que a polícia deixou de estar integrada à comunidade?"


Um capitão explica as razões do fenômeno. Primeira razão: a polícia foi fundada para defender o patrimônio estatal. Como sua prioridade não era o cidadão, embora fosse amável com ele, nunca conquistou sua simpatia. Segunda razão: quando, em virtude do avanço tecnológico, o automóvel se tornou a principal forma de locomoção da polícia, ela deixou de conviver com a comunidade, que fazia as suas coisas a pé.

Parece piada, mas não é.

Afinal de contas, antes disso, a polícia era como o leiteiro. Passava de porta em porta, dizia "bom dia" para as donas de casa e os vendedores nas ruas. Ela não extorquia, não espancava. Apenas protegia o cidadão honesto e bem de vida dos loucos que andam por aí.

Ela encarnava a felicidade pública, lograda nos negócios, estendida naturalmente à população. Por isso, é claro, cada homem via, na ronda de seu bairro, a imagem de seu mundo, onde era fácil garantir a própria sobrevivência e ninguém tinha que conter ou eliminar os que ameaçavam esse feliz propósito.

Por exemplo, quando um quitandeiro oferecia ao policial um lugar à sua mesa, isso nada tinha a ver com uma esperança de beneficiar seus negócios, protegê-lo de assaltantes e até, quem sabe, cobrar seus clientes insolventes. Não. As forças da lei e da ordem simplesmente faziam parte da calma e acolhedora atmosfera familiar. O policial amavelmente convidado a entrar era o bibelô do Estado, acomodado sem solavancos ao seio da família brasileira.

Quando ele, antes de lavar as mãos, tirava respeitosamente seu quepe e o deitava na poltrona da sala de estar ao lado do oratório e do cacetete, ouvia-se a prece da familia em agradecimento à mesa farta. E nesta ocasião, todos os dias, confirmava-se mais uma vez a solidez da celula mater da sociedade brasileira, hoje, por algum motivo, pervertida...

Ah, como eram bons aqueles tempos...

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Dilma, terrorista? - sobre o quanto de embotamento democrático é necessário para julgar a ação armada dos anos 60 e 70 como terrorismo (I)

Olha, não vou votar na Dilma nesse primeiro turno. Não tenho nenhuma simpatia pelo PT atual. Apesar disso, não dá pra concordar com esse vídeo aí. Nem de longe...

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Tinha um contexto que justificava os assaltos dos guerrilheiros. O dinheiro provavelmente bancou a sobrevivência muitas pessoas que viveram na clandestinidade. E essas pessoas lutaram, em nome de todos, contra condições insustentáveis que todos viviam. Assumiram os riscos e as coisas sujas que se faz para combater a opressão.

As pessoas que têm que ganhar a vida sem muitas vantagens, brigam, se digladiam, roubam oportunidades, promovem-se de maneiras as mais diversas (nem sempre muito elegantes), conservam o interesse sempre atrás da testa, tornam-se oportunistas, instrumentalizam relações, tornam-se hipócritas, acomodam-se ou criam situações conforme a necessidade. Depois usufruem de serviços que devem ser de todos. E usam o favoritismo conseguido por canalhices como sinal de distinção com relação aos que puderam menos. E tudo isso, sob a noção de "lutar para viver" e protegido por uma crença pessoal de dignidade (verdadeiramente religiosa!), é aceitável. Agora, numa situação que era muito mais violenta, por que as pessoas não deveriam assumir as coisas difíceis implicadas em qualquer tipo de luta pela liberdade?

Por que deveriam ser condenadas por isso? Só porque outras não assumiram (escolheram essas canalhices silenciosas que conhecemos) e assim estabeleceram o padrão de moralidade aceitável em condições extremas? O sequestrador, ladrão ou assassino de esquerda não é herói. Mas quem só sujou as mãos de longe merece ser alçado à posição de modelo moral da época? Não são pessoas parecidas demais com as que condenamos em segredo e de cuja "essência" nos separamos imaginariamente, só para provar que, apesar de tudo, ainda continuamos humanos?
Não continuamos. Somos menos humanos. E quem comprava televisão, assistia aos festivais com o salário de funcionário mas recuava de lutar está nesse mesmo patamar. E quem não se resignou a tão inglória compensação de maneira alguma é inferior!

Talvez até sejam superiores (não tenho gosto em heroicizar quem fez o que tinha que ser feito. Mas o que é certo é certo. E aquilo era!). Afinal, nunca é demais lembrar que o silêncio, apesar de ter um preço muito alto, vinha com a possibilidade de ser cidadão, ter um emprego e poder ter uma vida.

Não era assim que a canção dizia? "É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar/ Que um rosto sombrio está cheio de dor"?. Por que Gilberto Gil dizia que quem era "forte" o suficiente pra aguentar essa dor, que abrangia todos os quadrantes da vida de cada pessoa (em alguns casos, menos a conta bancária), deveria lembrar-se de que um rosto vazio era feito de dor? Porque a violência do Estado e a recompensa da vida conservada fazia com que as pessoas se esquecessem em quê sua sobrevivência estava baseada. E estava baseada em duas violências diametralmente oposta: a das acomodações dos que não foram para a luta política e a das agruras que aqueles sofriam.

A história muda sozinha, sem a ação das pessoas? Será que ela muda?

Está certo, era possível para o Estado voltar a ser democrático novamente. Era até necessário e intimamente relacionado às próprias razões do golpe, que o país abrisse o mercado interno para o mundo que se integrava rapidamente. Mas, mesmo assim, não foi a ação sindical, a formaçãdo PSDB e do PT, as lutas camponesas, as guerrilhas urbanas, a "contra-cultura", as ondas sucessivas de libertação colonial internacional, que foram mantendo a luta política em pé? O país realmente seria forçado no sentido da democracia se não fosse por essas lutas? É improvável. Nossa república nasceu com a espada e poderia muito bem continuar assim. Muitas outras da América Latina continuam assim.

Enfim, pensando direito, será que não projetamos uma acomodação ruim ao nosso tempo como motivo para aceitar a acomodação ruim (mas relativamente compreensível) daquele tempo? De fato nem todos que ficaram quietos eram gente ruim. Os apoiadores o eram, não háum minuto de dúvida quanto a isso. Mas será que a demonização de quem não assinou essa promissória não é o preço que o eleitorado de 2012 faz os revoltosos de 64 pagarem, pela vergonha de quem (mesmo que discordando da situação) não se deu ao trabalho de revoltar-se (e não quis, ou não pôde)?

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Acontece que, quando as pessoas discutem a desumanidade dos que não toleraram pressão da ordem, raramente se dispõem a pensar sobre o que significava acatar a ordem. Acho que pensar sobre isso pode ser interessante. Pelo menos para não reservar só aos "clandestinos" a pecha de desumanos...

O que quero dizer com isso? Que a acomodação a uma situação de violência, apesar de conservar a pessoa do grosso do tranco exterior, sempre corre o risco de ser feita por meio da interiorização da violência. E é justamente essa violência interiorizada que deixa de aparecer como violência para o sobrevivente. A mesma que, nesse vídeo, é creditada unicamente à chamada "guerrilheira".

Claro que isso não era geral. Muita gente, se nao arriscou cortar laços com a vida civil, tratou de resistir no campo costumes, pelo menos o quanto isso era possível. O pessoal cuca-fresca, por isso mesmo, apesar de estar um pouco no mundo da lua (financiado pela comunidade hippie ou pelo emprego na Shell) resistia à sua maneira à indizível pressão que o medo devia exercer sobre a conduta...

Mas, que fique claro: resistia só até certo ponto. E não devia ser incomum (não deve ter sido, julgando pelos filhos dessa geração, que conhecemos), encontrar os híbridos mais bizarros: mil variantes de defensores da liberdade que, de uma maneira ou de outra, tornavam-se violentos em algum aspecto. Nada disso tira o mérito dessas pessoas. Mas mais importante: nada tira o mérito delas, assim como a violência não tira o das que ousaram coisas tão importantes quanto combater abertamente o regime. Pessoas como a Dilma.

É comum tirar essas pessoas do quadro de uma vida comum. Quem não pagou o preço de aceitar a situação intolerável, sofre por compensação um processo de mitificação. São radicais, gente extremada, violentos, idealistas, loucos, em alguns casos doentes, ou então heróis, gente muito forte, extremamente determinada, santos. Dificíl é vê-las em sua humanidade completa, que é a mais reles, a mais comum. Ver como um ato de resistência nasce do fato de não se tolerar opressões que consideramos comuns, coisa que qualquer adulto deve suportar.

Ora, por isso mesmo, o contrário acontece com as pessoas ditas "normais", a que se atribui a grandeza da pequenês unânime de simplesmente querer viver, custe o que custar. Mas pensando até o fim a pessoa que tomava todas as precauções para não tornar-se um alvo - e por motivos compreensíveis, acomodava-se - o que acontecia com ela? E com os que estavam à sua volta?

Bom, além de terem de ficar quietinhas aproveitando tanto quanto possível do "milagre econômico", era importante confessarem-se cristãs, mesmo que isso não fosse verdade. Muito fervor entretanto não era aconselhável, já que podia levar a suspeitar de que fosse mentira (ou mesmo que o fervor humanista, mesmo que mistico, pendia à esquerda. Convinha portanto um ar de leve observância aos bons costumes, que, na prática, devia ser confirmada por coisas bem mais terríveis, sob a suspeita de ser só aparência.

Por isso mesmo, para todas as necessidades da vida que implicam agir-se sexuada e incisivamente, você encontraria sérios problemas. A competição por emprego entre elas. Mas também a libidinal. Afinal, não só o pai estaria te esperando com um pedaço de pau na mão depois do cinema ao ar livre. Não ligou para a páscoa? Não distribui santinhos no emprego? O que você lê à noite antes de dormir não deve ser a bíblia, então. Ou, no mínimo sua família não presta e você, por mácula de origem, pende para a subversão.

Em pleno desbunde, nenhum parente da família devia apresentar sinais de excessiva propensão libidinal de qualquer natureza. Qualquer desvio à ordem dos costumes, dos gostos e dos afetos poderia ser um risco. Isso abrangia desde o quarto até o guarda-roupa. Trajar roxo e amarelo certamente seria como andar pelado na rua. E se demonstrar resistências pessoais seria um risco, andar com gente inadaptada (e quem não era?) também poderia trazer problemas.

Você não é um idiota. Tem afeto às pessoas. Uma relação tranquila e calorosa com seus modos de serem. Acha um pouco sem sentido os rótulos. Tem amigos, tem experiências afetivas diversas, seus gostos vai se moldando no entrave entre elas e sua vontade. Você passa por tudo isso, e no final?

Se já não rechaçou essa confusão no processo, tem que se acomodar ao que já estava previsto para você no pijaminha azul ou rosa, com tal e outro tipo de corte, que é o mesmo do grupo dos bancários, almoxarifes com que vc convive, etc. Tem que ouvir uma música que não lhe agrada porque as demais foram proibidas ou seriam arriscadas.

Um grande amigo com quem vc batia grandes papos e foi viajar várias vezes andou falando em Cuba e coisas desse tipo - foi visto fumando um baseado, estava na estreia de "Roda Viva". Baubau, vc nunca mais verá essa pessoa. E você terá de confirmar as aparências de não ter sido contaminado, com uma decisão à toda prova de não vê-lo.

Enfim, você tornou-se um idiota. Um idiota dividido, mas ainda assim, um idiota. Toda a pletora de vida que te alimentava foi trocada por um punhado de dinheiro no final do mês e a garantia de não levar choques e pauladas. Você reflete e pensa que fez o certo. Mas, ainda assim, sabe que tornou-se um ser humano mais pobre por causa disso.

Se alguém (posto não fosse mulher) estivesse sem emprego, isso poderia parecer suspeito para a polícia (e os vizinhos) também. Talvez um grupo secreto estivesse sustentando a ovelha negra, pois o pai, lídimo defensor da ordem e do trabalho, é que não estaria. Imaginem a condição de qualquer adolecente? Eles não gostam mais de sonhar do que de prestar-se às ordens dos outros? Iriam direto ou para a comunidade hippie ou para a luta armada, ou para a cadeia. Mesmo no caso de a pessoa ter dinheiro, não precisar trabalhar, e não poder comprovar como o empregava, deveria ser um risco não trabalhar. Muito embora o desemprego fosse providenciado, para os outros, pelos recém-instalados critérios de excelência da sua empresa ou a do vizinho.

Olha só que situação paradoxal! Por ser proprietário e não afirmar-se ostensivamente alinhado com o regime, você se tornou alvo de suspeita de colaboração com comunistas. Melhor ir rapidinho ao delegado, abrir sua cadernetinha bem devagarinho, ponto por ponto.
Mais seguro mesmo é fazer como o Boilisen, e escrever um cheque bem gordo para a Operação Bandeirantes, confirmando que seus interesses não estão divididos entre a vida e as vendas.
Por outro lado, da parte de um trabalhador, qualquer tipo de incômodo com as condições de trabalho também seria um problema. E se isso é evidente no que se refere à repressão aos sindicatos, dá pra imaginar o que isso representava para a relação pessoal do trabalhador com o ambiente de trabalho (que é sempre marcada por discordâncias, quando não por ódio aberto diante da exploração?).

Outra coisa. Qualquer prurido intelectualista deveria ou ser imediatamente desviado para a justificação do status quo, ou clandestinamente alimentado, ou duramente sufocado (provavelmente por meio de pauladas literais ou simbólicas). Não estou falando de nenhum gênio de humanidades. Digamos que você gosta de carros, quer saber como eles são feitos, se interessa pela mecânica das peças. Você vai estudar engenharia, mas conhece à fundo a física e a matemática. Aprende sobre o papel emancipador que a ciência clássica desempenhou, apaixona-se pelo engenho humano em resolver problemas. Suas convicções políticas e seus gostos serão alterados pela descoberta. Mas não, você deverá se ater a seu medíocre propósito inicial: o de formar-se engenheiro e procurar emprego em uma montadora (o grau de automutilação necessário para parar alguém nesse tipo de busca não deve ser desprezado...).

Mas, não é preciso ir para algo tão específico quanto uma vida intelectual para reforçar a imagem. As próprias conversas comuns do dia a dia deviam ser como pontos marcados (mais do que já são hoje). E haja arte nisso! Afinal, não devia ser muito bom para as aparências manter-se totalmente superficial, sob suspeita de se estar escondendo alguma coisa. Em compensação, também não se podeira falar muito, pois os assuntos, descontrolados, certamente levariam à revelação de desvios de opinião.

Mais uma vez: não estou falando só de gente que precisa discutir as coisas à fundo. Nem da necessidade de se comentar os sucessos públicos do dia.

Digamos que você, um chauvinista típico, queira desafogar a rotina e a tensão conversando no bebedouro da firma com seu colega sobre uma noitada. Menciona uma certa casa de diversão que gosta de frequentar. Pois bem, nesse caso você está em sério risco de ser mandado para o xilindró. Afinal, mesmo que esse amigo seja um assíduo frequentador da Maison Frolé, a condenação por imoralidade pode levar à cadeia e, por isso mesmo, é um meio permanente de eliminação da concorrência. Quantas pessoas não devem ter se aproveitado disso?


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Quem ler isso, dependendo do ponto de vista, vai pensar: puf... a maioria dessas pressões já atuam sobre todo mundo, mesmo sem ditadura. Verdade. E isso deveria justificar o quê? A acomodação a elas? A proximidade que as pessoas procuram com ter esse modelo safado de gente qualificada quanto ao critério da vez? A sabedoria de tal escolha, diretamente relacionada ao fato de ela ainda proporciar ganhos na vida?

Não duvido que metade da estreiteza que vivemos hoje se deva a essa compreensível covardia dos que não queriam levar chumbo, nem receber a visita da polícia. Afinal, em tais condições, era melhor tornar-se um tirano (consigo e com os outros) no intuito de apresentar-se como um cidadão avesso à subversão. Assim como hoje é melhor deixar com que informações imbecis como a desse vídeo ensinem às pessoas a lição de brutalidade que os pais, brutais e estúpidos como eram, já não podem mais ensinar, simplesmente porque não se renovam tão rápido quanto a Apple.

Enfim, são os filhos e netos dessa acomodação violenta que estão prontinhos para acreditar nesse vídeo. Já estão antes de nascerem. Foi esse "bom-senso" que foi sendo despejado em suas cabeças. E isso em virtude da pura e simples aparência das coisas. A mesma que, quase 30 anos depois, confirmou como necessárias e desejáveis metade dessas absurdas e desumanas medidas de segurança, dispensando já a desculpa de fugir à morte e à tortura.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Fairytale State - de como pensar em Estado forte virou um anátema pior do que o de exigir salários decentes e lutar por moradia

Este post surgiu como reação estomacal ao desprezo verdadeiramente deprimente que aquela corja de comentadores de política de segunda instilou nas perguntas dirigidas a Pínio de Arruda Sampaio na sabatina da Band.

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//noticias.r7.com/brasil/noticias/plinio-defende-reestatizacao-de-tudo-e-revolucao-democratica-no-pais-veja-a-integra-20100727.html

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Detalhe, vejam o meu post anterior, olha que filha da puta de machetezinha desgraçada. Só falta pintar o Plinio de Arruda Sampaio de vermelho. O debate só é melhor porque ele enrola os jornalistas o tempo todo. Estes o tratam como um palhaço do começo ao fim, muito embora só façam perguntas desarticuladas baseadas no cinismo de quem acha realmente que o mercado tirou o país da miséria.

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Claro, quando é consenso que só o mercado é real e que o Estado, além de frágil, é um perseguidor paranóico da liberdade individual; quando toda iniciativa de Estado mínimo (de verdade, nem precisa chegar a welfare) supostamente queima o fi...lme do país no FMI, fica muito fácil estigmatizar alguém que defende o melhoramento do serviço público. E se a negociação da dívida for possível. E se o governo conseguir realmente investir na educação, na saúde e na reforma agrária? Em quaisquer desses campos...

Anos de FHC e Lula, mais o neo-liberalismo internacional, fizeram isso com a pocilga BR e o pardieiro mundo, qualquer outra possibilidade parece um sonho impossível. Tanto que, hoje, pra qualquer imbecil que reclama que o serviço público é um lixo, que estamos desprovidos do elementar e que o mercado nos está estraçalhando, quando vc fala em estatitização, o cara já começa a bufar, a repetir idiotices sobre cabedal de emprego, desfavorecimento no crédito internacional, no controle da mídia e da opinião.

Não é de se admirar. Pra todo e qualquer cidadão nascido de 80 em diante, pensar nessa possibilidade é uma extravagância. Depois da abertura democrática, já começou a se ouvir o barulho do trator. Pensavam que era a nave do futuro. Não era.

Esta geração cresceu sonhando com o emprego na multinacional. Se estão empregados, estão confirmados na ilusão de que o mercado é o verdadeiro meio de acesso ao futuro que agora finalmente chegou, apesar do desemprego crônico, da morte, da miséria (no fundo querem que o mundo se foda se puderem comprar na abercrombie). Se estão no subemprego, preferem que seja assim, afinal, há esperança de subir na vida, mesmo estando já há anos ganhando merreca e a vida se arrastando ao passo de uma lesma, na total falta de esperança. Se estão desempregados, pensam que isso se deve a uma falha congênita que, com muitas palestras de motivação, poderão superar. Em pouco tempo, são bandeados pro setor de voluntariado, onde o desespero pessoal é o melhor combustível para convencer os verdadeiramente fodidos de que o absimo pode ser o melhor propulsor que Deus já inventou.

Vamos ouvir esse cara falar, por favor! Que ele não seja eleito ou qualquer coisa do tipo. No mínimo dá pra aprender alguma coisa sobre o verdadeiro estado do país e sobre o que pode ser feito se isso aqui ainda não se tornou um grande depósito de sonâmbulos!!!!!!!!!!!!!!!

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É ridícula a tentativa dos caras de criar um velhinho meio gaga, e ouvindo o cara falar de fato mostra a importância de se colocar no debate uma posição anti capitalista... quem dera eu não achasse mais que é o país das fadas, mas pra mim, ...o real é o bolsa-família mesmo, e o seguro social para os pescadores e mineradores sertanejos, que o Lula diz que deveria ser ampliado para todos.. os sonambulos não são só aqueles que não enchergam a merda de país em que vivem, mas também aqueles que só apontam para a merda toda (não é uma indireta pra vc, ce ta ligado, mas pra escola do mau humor, que pra mim é a mais interessante, mas contribui a seu modo para a pasmaceira geral. Negativismo num país que é nacional por *subtração* tem outro peso.

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Pq o país das fadas? Tem a ver com o que vc viu na Venezuela?

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Acho que tbm, mas tem a ver com a descrença em coisas como reforma agrária irrestrita, toda a saúde e educação pública e de qualidade.... ta dificil de acreditar viu mano véio... enquanto outras coisas mais palpáveis tem rolado... podem ser poucas,mas nao sao desprezíveis...

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Que coisas, tipo, de base? Ouço falar de assistencialismo e projetos faraônicos típicos de todas as gestões "desenvolvimentistas". Bolsa família e PAC.

Nada desprezível o Bolsa Família, se não fosse insuficiente. Mas o que eu acho perigoso ...é mais o que o BF representa, o que ele tem em comum com o investimento em parceria público privada assistencialista.: caráter transítório, frágil, e nunca estrutural, sempre conjuntural. É o governo agir exatamente como o mercado com as coisas de base e, nesse nivelamento, depois deixar aberto o campo para a lógica de mercado gerir aqui. Não dá. Ou é autônomo, sem recurso, na briga, ou é estatal. De resto, pode-se sucatear tudo quando for conveniente.

Enfim, no geral, numa briga política, aceitar pequenas concessões não pode servir pra calar a demanda maior, certo? E se um dia for preciso escolher, o que é preferível? Um governo que consegue essas coisas que não são sólidas (um empréstimo do BNDES para uma ong de catadores significa o que para os catadores quando acabar o dinheiro?) e tira o chão das poucas coisas que são sólidas (educação, saúde, tudo sendo triturado à base "oficinas, AMES, etc", tudo no rodamoinho da "descentralização" mentirosa, que é precarização com outro nome)? Não é melhor um que luta pra reestabelecer o investimento social de base do que um que certamente não vai lutar por isso?

Não é demandinha besta de "fidelidade revolucionária". Revolucionário de cu é rola. Ambos são formas novas de gestão democrática, só que, na minha opinião, um não usa o poder para investir em meios sólidos de redução da diferença social e o outro sim. Um corrompe a consciência de longo prazo de todos (não só dos pobres) vinculando ganhos com investimento na perpetuação da miséria, o outro não aceita basear o programa inteiro nesse tipo de barganha e tem chance de reter o medidas urgentes só como paliativo.

Enfim, contrói-se uma política baseada em apagar incêndios. Escolhe-se tratar política assim. Dá pra fazer os dois e, se não se faz, tem má-fé. Acho que precisa enfrentar a desconfiança e a pecha de desumano para instalar isso como prioridade também. Talvez nem de maneir atão radical. Pensando deste ponto de vista, no mínimo a sucessão dos governos poderia ser benéfica, no sentido de manter algumas coisas assistenciais e complementá-las priorizando o que realmente precisa ser feito no interesse social a longo prazo (por mais que o à curto seja fundamental também).

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ahh, esqueci de completar...To ligado que não foi indireta pra mim. E mesmo se fosse, ce sabe que eu não ia levar a mal. Ruim não é discutir e discordar, é achar que tanto faz como fez qualquer coisa acontecer. E se nisso a gente tá de acordo, sussa...

Então, continuando...

Negativismo em país nacional por subtração tem mesmo outro peso. Corre o risco de botar demandas profundas em conflito com as imediatas, como tudo o que é radical faz, não? O risco de desacordo é profundo e as consequência não são "fácieis". Isso é prova de que a esquerda está desmantelada: por vias institucionais, quem defende investimento no serviço público está em desacordo com quem defende a melhoria na qualidade da sobrevivência dos pobres.

Ainda assim, acho que as pessoas não deveriam se deixar intimidar por isso: é a eficientíssima arma de dissuasão do governo Lula que funcionou durante oito anos que foi uma beleza! Transformou todos os discordantes em palhaços facistas que nos piores casos procuravam desesperadamente acreditar que não tinha mensalão nos governos anteriores. Como se fazer o que o Lula fez não fosse custar rios de dinheiro indo para o bolso dos aspirantes a caciques que deveriam ficar quietinhos... é tão óbvio!

Mas aí é que tá. Dos piores para os melhores casos tem uma diferença significativa. Uma coisa é discordar do que aconteceu nesses oito anos, com ranço, botar a culpa da precarização (e dos limites decorrentes para a classe média) no Bolsa Família. Outra coisa é ver a política neoliberal como um todo e perceber o papel que o Lula fez o Bolsa Família desempenhar nesse quadro como um todo.

Pensando assim, o que a classe média oferece como perpectiva é a experiência do engano, algo como: "tá vendo essa linha, daqui a gente não passou, vc quer realmente encontrar essa linha quando (e se) chegar a sua vez"? Mas como os interesses dela estão em jogo também, convém desviar o caminho e única coisa de bom senso, mesmo, é unir as precariedades que, funcionando mais tempo o Bolsa Família, apesar do que diz a propaganda do Lula, não vão coincidir.

Você falou acima de seguro social para pescadores. É seguro social? Aposentadoria, FTGS? Mas nem a classe média tem isso mais. Mesmo ela tem que fazer previdência privada. Ou é auxílio alimentação, salário mínimo, etc? Se for a primeira opção - e que não coloque como perpectiva no fim da vida o mau e eterno seiscentão por mês - estou desinformado.

Sobre o realismo político em condições absurdas

Este post surgiu de uma conversa com um amigo à respeito da candidatura do Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) para presidente.


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Bill, votando à esquerda, tá valendo. hahaha


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Putz, isso deixou de ser verdade desde 2003, se é que já era antes.

Eu ia votar nulo, agora juro que tô reconsiderando. Nunca ouvi alguém falar com solidez sobre criar serviços públicos decentes. Nem o Lula jamais falou. O barbudo vermelhinh...o foi sempre cor de rosa.

Educação pra todos! Mas como? Frases vazias. No máximo era luta sindical por aumento do salário que estava em questão, desde os comícios da década de 70, embora se falasse em algo mais. Porra, isso não é uma agenda inclusiva! É algo que adoça a demanda de um país melhor por parte de quem tá ferrado, algo que cava uma concessão do´empresariado e da elite. Deu no que deu. Aliás, só quando "investir no social" virou negócio em um mercado saturado.

Mesmo que uma política assim não me inclua (suponha que o mercado piore com uma fuga de empresas daqui, com empresas estatizadas, continuo com tão poucas perspectivas quanto estou...), vai valer a pena pras gerações seguintes não passarem o que eu estou passando. Para elas não terem os buracos de formação que eu tenho, não precisarem se matar pelo mínimo. Para elas conseguirem viver num lugar menos violento, com menos competição, onde dá pra trabalhar o suficiente e aproveitar a vida e não se transformar em uma máquina de eficiência (aliás, às vezes, à troco de nada) ou em lixo social.

Tem que prestar atenção no que esse cara estar dizendo e divulgar! Ninguém está falando mais sério com quem está se fodendo neste país. E isso inclui inclusive quem não está se fodendo integralmente e quem acha que, porque não está na bucha, vive bem, já que pode de vez quando ir pra Europa e viver metade aqui metade lá, onde se respira civilização. Tá errado, os limites de vida são os que estão postos onde se nasce, todo mundo sabe disso. Nâo tem como escapar e as alfândegas garantem isso

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O foda, cara, é que o Plinio está aí para denunciar, para carregar a bandeira da esquerda, para escancarar a porta do armário secreto e meter a faca na ferida. Mas jamais poderia ser eleito. A estrutura política (constitucional) não permiti...ria que governasse. Enquanto não acontece a reforma política dos sonhos - e concordo plenamente com o Lula sobre a necessidade de uma constituinte pata isso, o Congresso não tem a mínima condição de mexer na Carta para esse fim -, na verdade existem duas opções no páreo: Dilma ou Serra. Numa conjuntura mais ampla, Aécio e Ciro Gomes (com um proposta mais ou menos conciliatória, dependendo dos agentes envolvidos). E é o que tem para hoje.

Não anima, mas é a verdade.

Quanto ao Lula, quem o idealizou como uma liderança marxista-leninista e agora se diz decepcionado é quem interpretou tudo errado. Ele sempre foi um grande negociador, um dos melhores mediadores da história do país. Faz um governo de centro-esquerda e tal, mas o PT (em massa) aderiu ao fisiologismo justamente por causa da estrutura política que citei. Quem não teve estômago mudou de barco. Plinio de Arruda Sampaio (fundador do PT) é um deles.

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Opa... vamos lá, então.

1) Assumir de cara que só os partidões têm governabilidade justifica ao eleitor pensar "dentro do círculo vicioso" da política no Brasil. Esse tipo de ideia de política é insustentável, continuação da oligarquia na d...emocracia: só o que ecoa forte nos interesses majoritários do congresso tem chances e como isso é garantido com pressões de todo tipo sobre a população, além de o voto ser inútil, esse vai ser sempre o horizonte político no Brasil. Isso é tomar as mudanças como superficiais e achar que o Brasil verdadeiro vai ser sempre só o dos Caciques.

É mentira. A própria eleição do Lula prova o contrário e o fato de ele ter governado por medidas provisórias mostra que há o que fazer para além da gritaria na mídia e no plenário. Aliás, a política dele é muito mais interessante para a burguesia urbana, com seus negócios internacionais e sua aposta no terceiro setor, do que para as múmias latifundiárias. Só se torna interessante pra elas também porque a alta taxa de juros que permite que o crédito e o mercado se desenvolvam nas cidades também permite gerar divisas e investir também no grande negócio do campo. Mas o interesse principal contemplado aqui não é o dos Caciques, é o do empresariado. E mesmo que isso, somado ao auxílio aos miseráveis, gere mau humor no "Brasil antigo", é aceito tranquilamente quanto mais confere aos velhos patriarcas uma cara boazinha e um ar moderno.

2)Submeter a mudança disso à "reforma política" é cair no discurso em que concordam oligarcas, empresariado e esquerda vendida: só o fortalecimento da política democrática combate as velhas estruturas de poder no Brasil. Errado. Fidelidade partidária, financiamento público, paritário e transparente de campanha são coisas irrelevantes quando a política é decidida fora do congresso, no voto de cabresto, na necessidade de alimentar o mercado com isenções, etc. Reforma política é a promessa mentirosa de regeneração da política brasileira, é o "te pago amanhã", é o "passo a passo" mentiroso de quem acredita que a democracia foi instalada aqui pra combater a desigualdade. Não ela foi. Foi instalada pra ampliar a base de poder, permitir composição mais heterogênea no poder nos termos antigos, maior mobilidade. O que não é a mesma coisa do que governar segundo os interesses antagônicos da população com primazia para a redução da desigualdade.

Pode ver que a plataforma do PSOL só defende isso em articulação com o fortalecimento do Estado. É razoável, investindo em educação, há de fato uma força combatendo os meios calhordas de arrebanhamento do voto.

Em suma, a mudança não vai começar quando o congresso funcionar bem, mas sim, se, um dia, ele for, ou instrumento de aplicação da política do poder executivo orientada à esquerda, ou lugar em que ecoe um debate vindo da população (o que é improvável, pois só se conseguiria criar condições pra uma verdadeira fomação de consciência da população com reformas de base ligadas à educação e às comunicações, coisas que aqui só podem ser feitas com o garrote do Estado. Aliás não acho que nenhuma das duas coisas podem acontecer. Minha simpatia com o que diz o Plínio vem de uma lógica do mal menor. Mudar mesmo, seria romper com tudo isso. Mas como isso não está à vista também, melhor pensar no que está proposto e rejeitar terminantemente essa lenga-lenga de reformas democráticas desligadas de investimentos de base)

3)Apesar de ter sido burro quem "idealizou o Lula como liderança marxista", o erro não era casual. A fundação do PT e da CUT foram formas de institucionalização da luta social estancada com o golpe militar. Era necessária. As bases que sustentavam o PT não eram conciliatórias em parte. Iam desde os movimentos do campo até o do sindicalismo urbano, passando pelos centros de cultura, a esquerda acadêmica etc. Era um fronte ampla necessária pra dar força ao movimento político.

Até mesmo o discurso do Lula só pode ser visto como vendido hoje. Para a época, desenvolvimentismo e indústrias bombando aqui no Brasil, a esquerda tinha a ver com sindicalismo,tinha a ver com colocar os interesses do trabalhador (industrial) como linha mestra da transformação social, e isso era avançadíssmo. Muito pouca gente percebeu ao longo do tempo que esse discurso poderia ser o complemento do discurso da burguesia urbana do golpe, que também queria que mercado e relações modernas amparadas pelo Estado se desenvolvessem no Brasil (mas em benefício não dos trabalhadores e sim do empresariado e das classes médias).

Noutras palavras, as mudanças históricas garantidas pelo neo-liberalismo do PSDB (que pautou o que significa democracia aqui) arrancou toda a substância transformadora do discurso de esquerda antigo, que, mantendo-se igual, passava a defender ao mesmo tempo o assistencialismo e as relações contemporâneas de trabalho degradado, não o trabalhador e os serviços de base extraidos dos impostos da relação antiga de trabalho, que já tinha sido rifada pela realidade econômica implantada pelo sr. boca de sovaco FHC.


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Calma, Bill, você tá indo muito além. Vamos ao tijolo por tijolo antes de análise tão incisiva.

Dá para governar sem maioria ou pelo menos metade do Congresso com a Constituição de hoje? Vamos pensar que o Plinio, de alguma forma, consegue ...se eleger. Com o Congresso nos moldes do atual. O Lula só governou com as medidas provisórias porque tinha uma base sólida segurando o rojão. Se o Congresso está claramente contra o presidente, organiza a pauta para votar cada MP no dia seguinte à expedição. E derruba medida por medida. E aí?

Tem jeito que não seja uma reforma política absoluta?

Concordo, o PT de hoje não é o PT de 80. Nem de 90. Só por isso Lula se elegeu.

Ideologicamente, eu sou muito mais próximo do PSOL do que do PT. Mas não adianta, não vejo como mudar a estrutura sem antes dar um jeito de mexer nas regras do jogo.

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Você tem razão, melhor partir das condições presentes. A reforma política seria uma maneira de ajudar a desestabilizar o domínio de poder pelas alianças de base no congresso. Seria precondição, não para o Plínio fazer alguma coisa, mas paragarantir a mínima governabilidade.

Certo. Agora...

1) também é verdade que a RP não está sendo nem vai ser votada justamente por isso. E, se for, vai chegar no final mais pelada do que frango de macumba. Concorda?

Por que será que o "empenhado" governo FHC não fez pressão para isso acontecer (apesar de ter feito a Lei de Responsabilidade Fiscal)? Com o que é que o governo "revolucionário" do Lula estava ocupado para deixar isso de lado? Chamar constituinte? Ele nunca faria isso? O da Dilma vai fazer? Não. Vai ampliar o PAC e segurar o Fome zero. Consagração da democracia madura? Governo do povo, mantendo o coração do poder legislativo nas mãos da ciranda de Alagoas com São Paulo?

Pois bem. Exatamente por essa impossibilidade de fazer passar a RP, não funciona "preparar as condições antes de votar para mudar". Se a gente ficar esperando mudanças de dentro, o "momento" não vai chegar. Se toda a mobilização se reduz à "pressão da sociedade civil", o lobby vai acabar falando mais alto, como sempre fala.

Coerentemente, tudo o que está no programa do Plínio depende mais de verdadeira mobilização da população (não do grita grita na imprensa) do que de mudanças internas. Essas mudanças verdadeira é que têm que acontecer primeiro, não a das regras do jogo que é uma merda e vai continuar sendo, com a imprensa denunciando abusos do execultivo ou não.

2) Exatamente por isso, não adianta separar "o que se quer ideologicamente" do que "é possível fazer". Educação e saúde decentes e universais são pra ontem e são, ontem como hoje, um objetivo distante. A culpa desse estado de coisas pode ser atribuída também a esse "realismo" político que sempre esperneia e mantém as coisas no lugar.

Você já viu esse filme... Quando a gente pensa que conseguiu alguma coisa de sólida, ela era um desvio bem feito por parte de quem soube conseguir o que queria nos levando a pensar que nós é que conseguimos. Isso é o que está por de trás do "respeito à instituição democrática.

É tudo conversa... Tem que romper com essa merda e deixar claro que o que se quer é o que não dá pra ter com base nas condições dadas. Claro, se vc quer ruas pacíficas, relativa estabilidade nos negócios, badulaques importados, tv de plasma na favela, tudo isso está dentro do possível. Investir na polícia e manter a política econômica do meirelles vai garantir isso. Quer dizer, pelo menos até que o PCC dê uma ordem um pouco mais exaltada e vc perceber que seu filho está vivendo (mal!) de bicos...

3) Mais uma vez, vc tem razão. É altamente improvável que o Plínio seja eleito. É quase certo que ele não passará do primeiro turno. Ao mesmo tempo, há coisas "novas" acontecendo no país.

A classe média, desde quando surgiu no império, nunca teve condições de vida tão precarizadas assim. Antes, diminuta como era, ela era inteiramente absorvida (como empregada) pelos cargos estatais e recebia educação decente pra isso. O Plínio é produto desse país e toda a ala esclarecida de fundação do PT também.

Acontece que, agora, essas condições de vida se diluíram. Assim como tem gente que faz faculdade e mora na (ou rente à) favela; tem gente que nasceu bem e não vê perspectivas melhores.

Se a tv de plasma na sala da favela não se transformar magicamente em um plano de moradia, se a saúde continuar se precarizando como está, se o domínio do tráfico crescer mais ainda e encher de balas perdidas o quarto do bebê vc acha que algum fome zero vai segurar a barra? Se o mercado continuar excludente como está e só permitir acesso a saúde meia boca e educação péssima, se a violência não for contida de alguma forma e a crise dos aeroportos não permitir mais pequenas escapadelas para o exterior, você acha que a dócil classe média vai continuar tão dócil assim?

Acho que não. Acho mesmo que esse estado de coisas é um barril de pólvora com uma rolha bem piscante e colorida segurando o estouro.

Noutras palavras, imagino que, se não houvesse mídia; se o país tivesse cometido a loucura de se modernizar mantendo um mínimo de educação decente; se não tivesse desmantelado a esquerda através da cooptação; se o programa demagógico do Lula não fosse altamente eficiente, a coisa ia ser diferente. Diferente como? Simples: a violência de que todo mundo caga de medo estaria dirigia para onde interessa, para o poder.

Foi isso que aconteceu em 1962. O país se modernizava, colhia os frutos dos anos do Getulio, aproveitava o fechamento do horizonte econômico na Europa, estava desenvolvendo indústria. Com isso, ampliavam-se as camadas médias, a educação generalizava-se um pouco (mantendo-se excludente), a política, depois do fim da ditadura getulista, organizava as demandas da população que continuava miserável como antes. Num quadro como esse, o golpe só foi dado porque havia sério risco de o país enviezar para a esquerda e porque a burguesia urbana via ameaçada a possibilidade de integrar-se no mercado internacional que também estava chegando.

Claro, não digo que nada disso esteja acontecendo agora (não, as coisas boas, como uma classe média atuante e um povo que ainda se mexia não existem mais). Mas o fato é que cada surto de modernização deixa restos que têm que ser calados. E acho que é isso que a gente esta vivendo agora. Esse caldo explosivo é o resto do período FHC_LULA, de neoliberalismo com máscara social. Se o Serra for eleito, é para conter esse perigo que ele vai jogar cavalos em cima de cada manifestação pública. Se o Plínio for eleito é a partir desse impulso que as coisas poderiam começar a mudar.