segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Fairytale State - de como pensar em Estado forte virou um anátema pior do que o de exigir salários decentes e lutar por moradia

Este post surgiu como reação estomacal ao desprezo verdadeiramente deprimente que aquela corja de comentadores de política de segunda instilou nas perguntas dirigidas a Pínio de Arruda Sampaio na sabatina da Band.

********

//noticias.r7.com/brasil/noticias/plinio-defende-reestatizacao-de-tudo-e-revolucao-democratica-no-pais-veja-a-integra-20100727.html

********

Detalhe, vejam o meu post anterior, olha que filha da puta de machetezinha desgraçada. Só falta pintar o Plinio de Arruda Sampaio de vermelho. O debate só é melhor porque ele enrola os jornalistas o tempo todo. Estes o tratam como um palhaço do começo ao fim, muito embora só façam perguntas desarticuladas baseadas no cinismo de quem acha realmente que o mercado tirou o país da miséria.

*********

Claro, quando é consenso que só o mercado é real e que o Estado, além de frágil, é um perseguidor paranóico da liberdade individual; quando toda iniciativa de Estado mínimo (de verdade, nem precisa chegar a welfare) supostamente queima o fi...lme do país no FMI, fica muito fácil estigmatizar alguém que defende o melhoramento do serviço público. E se a negociação da dívida for possível. E se o governo conseguir realmente investir na educação, na saúde e na reforma agrária? Em quaisquer desses campos...

Anos de FHC e Lula, mais o neo-liberalismo internacional, fizeram isso com a pocilga BR e o pardieiro mundo, qualquer outra possibilidade parece um sonho impossível. Tanto que, hoje, pra qualquer imbecil que reclama que o serviço público é um lixo, que estamos desprovidos do elementar e que o mercado nos está estraçalhando, quando vc fala em estatitização, o cara já começa a bufar, a repetir idiotices sobre cabedal de emprego, desfavorecimento no crédito internacional, no controle da mídia e da opinião.

Não é de se admirar. Pra todo e qualquer cidadão nascido de 80 em diante, pensar nessa possibilidade é uma extravagância. Depois da abertura democrática, já começou a se ouvir o barulho do trator. Pensavam que era a nave do futuro. Não era.

Esta geração cresceu sonhando com o emprego na multinacional. Se estão empregados, estão confirmados na ilusão de que o mercado é o verdadeiro meio de acesso ao futuro que agora finalmente chegou, apesar do desemprego crônico, da morte, da miséria (no fundo querem que o mundo se foda se puderem comprar na abercrombie). Se estão no subemprego, preferem que seja assim, afinal, há esperança de subir na vida, mesmo estando já há anos ganhando merreca e a vida se arrastando ao passo de uma lesma, na total falta de esperança. Se estão desempregados, pensam que isso se deve a uma falha congênita que, com muitas palestras de motivação, poderão superar. Em pouco tempo, são bandeados pro setor de voluntariado, onde o desespero pessoal é o melhor combustível para convencer os verdadeiramente fodidos de que o absimo pode ser o melhor propulsor que Deus já inventou.

Vamos ouvir esse cara falar, por favor! Que ele não seja eleito ou qualquer coisa do tipo. No mínimo dá pra aprender alguma coisa sobre o verdadeiro estado do país e sobre o que pode ser feito se isso aqui ainda não se tornou um grande depósito de sonâmbulos!!!!!!!!!!!!!!!

**********

É ridícula a tentativa dos caras de criar um velhinho meio gaga, e ouvindo o cara falar de fato mostra a importância de se colocar no debate uma posição anti capitalista... quem dera eu não achasse mais que é o país das fadas, mas pra mim, ...o real é o bolsa-família mesmo, e o seguro social para os pescadores e mineradores sertanejos, que o Lula diz que deveria ser ampliado para todos.. os sonambulos não são só aqueles que não enchergam a merda de país em que vivem, mas também aqueles que só apontam para a merda toda (não é uma indireta pra vc, ce ta ligado, mas pra escola do mau humor, que pra mim é a mais interessante, mas contribui a seu modo para a pasmaceira geral. Negativismo num país que é nacional por *subtração* tem outro peso.

************

Pq o país das fadas? Tem a ver com o que vc viu na Venezuela?

***********

Acho que tbm, mas tem a ver com a descrença em coisas como reforma agrária irrestrita, toda a saúde e educação pública e de qualidade.... ta dificil de acreditar viu mano véio... enquanto outras coisas mais palpáveis tem rolado... podem ser poucas,mas nao sao desprezíveis...

***********

Que coisas, tipo, de base? Ouço falar de assistencialismo e projetos faraônicos típicos de todas as gestões "desenvolvimentistas". Bolsa família e PAC.

Nada desprezível o Bolsa Família, se não fosse insuficiente. Mas o que eu acho perigoso ...é mais o que o BF representa, o que ele tem em comum com o investimento em parceria público privada assistencialista.: caráter transítório, frágil, e nunca estrutural, sempre conjuntural. É o governo agir exatamente como o mercado com as coisas de base e, nesse nivelamento, depois deixar aberto o campo para a lógica de mercado gerir aqui. Não dá. Ou é autônomo, sem recurso, na briga, ou é estatal. De resto, pode-se sucatear tudo quando for conveniente.

Enfim, no geral, numa briga política, aceitar pequenas concessões não pode servir pra calar a demanda maior, certo? E se um dia for preciso escolher, o que é preferível? Um governo que consegue essas coisas que não são sólidas (um empréstimo do BNDES para uma ong de catadores significa o que para os catadores quando acabar o dinheiro?) e tira o chão das poucas coisas que são sólidas (educação, saúde, tudo sendo triturado à base "oficinas, AMES, etc", tudo no rodamoinho da "descentralização" mentirosa, que é precarização com outro nome)? Não é melhor um que luta pra reestabelecer o investimento social de base do que um que certamente não vai lutar por isso?

Não é demandinha besta de "fidelidade revolucionária". Revolucionário de cu é rola. Ambos são formas novas de gestão democrática, só que, na minha opinião, um não usa o poder para investir em meios sólidos de redução da diferença social e o outro sim. Um corrompe a consciência de longo prazo de todos (não só dos pobres) vinculando ganhos com investimento na perpetuação da miséria, o outro não aceita basear o programa inteiro nesse tipo de barganha e tem chance de reter o medidas urgentes só como paliativo.

Enfim, contrói-se uma política baseada em apagar incêndios. Escolhe-se tratar política assim. Dá pra fazer os dois e, se não se faz, tem má-fé. Acho que precisa enfrentar a desconfiança e a pecha de desumano para instalar isso como prioridade também. Talvez nem de maneir atão radical. Pensando deste ponto de vista, no mínimo a sucessão dos governos poderia ser benéfica, no sentido de manter algumas coisas assistenciais e complementá-las priorizando o que realmente precisa ser feito no interesse social a longo prazo (por mais que o à curto seja fundamental também).

**********

ahh, esqueci de completar...To ligado que não foi indireta pra mim. E mesmo se fosse, ce sabe que eu não ia levar a mal. Ruim não é discutir e discordar, é achar que tanto faz como fez qualquer coisa acontecer. E se nisso a gente tá de acordo, sussa...

Então, continuando...

Negativismo em país nacional por subtração tem mesmo outro peso. Corre o risco de botar demandas profundas em conflito com as imediatas, como tudo o que é radical faz, não? O risco de desacordo é profundo e as consequência não são "fácieis". Isso é prova de que a esquerda está desmantelada: por vias institucionais, quem defende investimento no serviço público está em desacordo com quem defende a melhoria na qualidade da sobrevivência dos pobres.

Ainda assim, acho que as pessoas não deveriam se deixar intimidar por isso: é a eficientíssima arma de dissuasão do governo Lula que funcionou durante oito anos que foi uma beleza! Transformou todos os discordantes em palhaços facistas que nos piores casos procuravam desesperadamente acreditar que não tinha mensalão nos governos anteriores. Como se fazer o que o Lula fez não fosse custar rios de dinheiro indo para o bolso dos aspirantes a caciques que deveriam ficar quietinhos... é tão óbvio!

Mas aí é que tá. Dos piores para os melhores casos tem uma diferença significativa. Uma coisa é discordar do que aconteceu nesses oito anos, com ranço, botar a culpa da precarização (e dos limites decorrentes para a classe média) no Bolsa Família. Outra coisa é ver a política neoliberal como um todo e perceber o papel que o Lula fez o Bolsa Família desempenhar nesse quadro como um todo.

Pensando assim, o que a classe média oferece como perpectiva é a experiência do engano, algo como: "tá vendo essa linha, daqui a gente não passou, vc quer realmente encontrar essa linha quando (e se) chegar a sua vez"? Mas como os interesses dela estão em jogo também, convém desviar o caminho e única coisa de bom senso, mesmo, é unir as precariedades que, funcionando mais tempo o Bolsa Família, apesar do que diz a propaganda do Lula, não vão coincidir.

Você falou acima de seguro social para pescadores. É seguro social? Aposentadoria, FTGS? Mas nem a classe média tem isso mais. Mesmo ela tem que fazer previdência privada. Ou é auxílio alimentação, salário mínimo, etc? Se for a primeira opção - e que não coloque como perpectiva no fim da vida o mau e eterno seiscentão por mês - estou desinformado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário